Artigos - Gestão de Pessoas

O esporte na administração

Não sei se são as características do esporte que praticamos que influencia o nosso “jeitão” de viver ou se, ao escolhermos o esporte, já escolhemos aquele que mais tem a ver com o nosso “jeitão”.

Não importa se o ovo ou a galinha, mas é impressionante como há uma identidade das características do esporte ou passatempo que a pessoa pratica com a sua personalidade.

Assim como nos esportes os diversos tipos de trabalhos também exigem características diferentes. Conhecer essas características e bem escolher seus executores é um fator de sucesso na obtenção de resultados através de terceiros.

Na maioria das profissões, o crescimento, a ascensão, as promoções, trazem consigo a responsabilidade de obter resultados através de terceiros. Quanto mais experiente mais chance de liderar e maior será a cobrança de maiores resultados.

Você inicia como estagiário, como jogador, como músico e se bem sucedido pode chegar a diretor, treinador e maestro, etc. O músico tinha que tocar bem a sua partitura, o maestro tem que fazer todos integrantes da orquestra tocarem.

Enquanto auxiliar, técnico, analista e supervisor de tarefas, você precisa bem “se” administrar. Depois como coordenador de uma pequena equipe, gerente, superintendente, diretor e presidente, você precisa multiplicar, ou seja, o resultado que é esperado de você deve ser maior que a soma de todos os recursos que estão a sua disposição.

Conseguir obter como resultado a “soma” dos resultados individuais dos recursos disponíveis já é um grande tento. Isso porque muita energia se perde (com bobagens) nos trabalhos em equipes.
Conseguir obter um resultado maior que a soma dos resultados individuais dos recursos disponíveis é fator de sucesso, é a chamada “sinergia”.

São diversos os ingredientes para obtenção da sinergia, não é fácil obtê-la e muito mais difícil ainda, se não impossível, mantê-la.

Um desses ingredientes (fatores de sucesso) é saber escolher e conhecer os colaboradores (recursos) e saber designar as tarefas considerando as aptidões que a tarefa exige e as aptidões dos recursos disponíveis. É importante que as características que a tarefa exige sejam compatíveis com as características naturais do executor.

A coincidência das características exigidas por uma tarefa com as características naturais do executor é metade do sucesso. 

Quando as características são diferentes, o executor da tarefa estará sempre “brigando”, se não for com as características da função (entendendo que as suas são as que deveriam prevalecer) estará brigando com as suas características naturais (forçando sua natureza). Isto é comum acontecer e pode acontecer com o próprio líder. Nestes casos é importante saber, antes de executar a tarefa, quais as características que ela exige e tratar de ser um bom ator, ou seja, assumir o papel que a tarefa exige subjugando suas características naturais àquelas necessárias. Isso é muito mais rápido, fácil e mais barato que tentar fazê-la no conflito entre recursos exigidos e recursos aplicados.

Bem, até aqui tentei sensibilizá-lo que você terá mais chance de sucesso se, antes de distribuir uma tarefa, conhecer e considerar as características exigidas (pela tarefa) e disponíveis (dos executantes - que pode ser você mesmo). 

É aqui que o esporte pode lhe ajudar. 

Experimente classificar as tarefas pelas suas características e agrupá-las intitulando-as com o nome do esporte que também exige as mesmas características.

Conheça seu pessoal (inclusive você), procure saber as características naturais, saiba qual é o esporte e o passatempo de cada um – isso ajuda, mas não é infalível – converse sobre essa sua avaliação individualmente e coletivamente. A equipe deve se conhecer e considerar as diferenças como um grande privilégio. As diferenças devem ser consideradas como força e não como fraqueza.

Para ficar mais divertido vamos falar das características de alguns esportes. 

O tênis é um esporte individual onde você precisa derrotar o oponente colocando a bola onde ele não possa alcançar. Ao vencer você sobe um pouco mais na tabela. As regras são rígidas; quadra bem demarcada, altura específica da rede, solo apropriado, um monte de juizes e muitas outras exigências. O sucesso nesse esporte exige muito treinamento, disciplina, respeito, concentração, estudar o adversário, aproveitar suas franquezas e ter muita garra. É um jogo cheio de formalidade, de ganha/perde, não há empate, um vive o outro morre. Nunca vi, mesmo que seja de brincadeirinha, não haver contagem num jogo de tênis, é exigido o ganha/perde. Quando você conversa com um tenista ele sempre coloca o assunto onde você não pode alcançar.

Um outro esporte que apesar de também utilizar dois jogadores com raquetes e bolinha semelhantes ao tênis tem suas características completamente diferentes. O frescobol é muito parecido com o tênis, mas suas características são contrárias. Não tem rede, não tem demarcação de quadra, não tem juízes, não tem contagem, é um jogo ganha/ganha. Os dois jogadores se divertem em proporcionar uma oportunidade para o outro mostrar sua perícia, ou seja, um levanta para o outro bater, mas bater de forma que possibilite o outro conseguir responder. Quando um jogador manda uma bola que o outro não consiga apanhar ele pede desculpas e, o mais intrigante é que, quem busca a bola perdida é quem está mais perto dela independente se foi ele quem errou.

Dois jogos muito semelhantes com características muito diferentes, até contrárias.

Use o tenista nas difíceis e formais assembléias de acionistas e o jogador de frescobol nas reuniões com os clientes e fornecedores parceiros.

A corrida dos 100 metros no atletismo é um esporte ainda mais individual, apesar de existirem diversos participantes o adversário é o relógio, aliás, cronômetro. Tem muita semelhança com o tênis, mas é importante conhecer as diferenças. O corredor não precisa se preocupar com seus adversários, ele precisa ter o menor tempo, precisa chegar primeiro. É um ganha/perde, mas os participantes lutam contra o relógio, não entre si. O atleta treina sozinho, procura a melhor e última tecnologia nas sapatilhas e vestes – na natação raspam todos os pelos – tem um enorme apoio técnico e médico, mas sempre objetivando chegar primeiro. A satisfação na vitória é por ter feito em tempo recorde, não por ter vencido os demais competidores. Só vale o primeiro lugar, não interessa nenhuma outra classificação. Se ninguém descobrir, vale anabolizante.

A maratona também é uma corrida, também é um esporte individual e contra o relógio, mas é uma grande farra se comparada com a corrida de 100 metros. Pode haver 15 mil participantes, eles não se entendem competidores adversários, se todos completarem o percurso demorando um segundo menos que seu tempo anterior todos se consideram vencedores. O mais importante é o termino do percurso, lembra daquela maratonista das olimpíadas que chegou quase que morrendo?O maratonista não perde nunca, quando chega por último, mesmo que tenha gastado mais tempo que o seu normal, ele entende que ganhou alguma coisa. Se é que existe um adversário ele é o tempo anterior do próprio atleta. É um ganha/ganha festivo. O maratonista não pensa em anabolizante porque isso seria enganar a si próprio.

Para vencer uma concorrência muito concorrida e com pouco prazo use um corredor dos 100 metros e para uma reorganização e atualização do cadastro geral da empresa – que necessita muito cuidado e paciência - use a perseverança do maratonista. Nunca interrompa nenhum dos dois depois deles começarem seus trabalhos. O corredor você não alcançará e se conseguir avisá-lo, ele não conseguirá parar. O maratonista só aceita outra tarefa depois de passar a linha de chegada da primeira.

Nas negociações de compras use boxeadores. O boxe exige muito treinamento, condição física, estudo detalhado do adversário antes e durante a partida. Apesar de ser um esporte bruto, com contato físico na base da pancada, sangue, cortes, etc., há regras e muita disciplina. É um ganha/perde, mas diferente do tênis. É direto, franco, faz parte tomar uma no meio da cara, cair na lona e levantar como se nada tivesse acontecido faz parte. Acabada a luta os competidores se abraçam como se fossem parceiros numa maratona. O boxeador não esmorece com uma pancada, ele volta à luta como se nada tivesse acontecido, quando sente raiva é dele próprio por ter baixado a guarda. Não dê ao boxeador uma tarefa que requeira diplomacia e política. Ele é um “acabativo” e pisa firme em linha reta em direção ao objetivo. O que mais admiro nos boxeadores é eles não perderem a “pose” quando golpeados. Todos nós, seres humanos normais, ao tomarmos uma invertida perdemos a cor pelo medo, ou ganhamos o roxo pela raiva, ou o vermelho pela vergonha. Eles? Não foi com eles. Isso não é admirável?

Quando precisar de espírito de equipe analise as características dos esportes em equipes como o futebol, o vôlei, etc.

Cada um deles tem características próprias assim como as exigências da tarefa a ser executada. Alguns esportes, mesmo que em equipe, permitem estrelas, individualismo, como é o caso do futebol, outros como o vôlei, não.

Alguns têm nomes parecidos, como o futebol e o futebol de salão, mas as características são muito diferentes, como é o caso do vôlei e o vôlei de praia.

O vôlei é muito bom para o espírito de equipe. É um ganha/perde, mas não permite individualismo. Em alguns aspectos, como o de colocar a bola onde o adversário não consiga pegar, é bem parecido com o tênis, mas pegar um tremendo abacaxi do adversário e servir um doce para a equipe poder mandar um abacaxi ainda maior para o adversário é uma característica muito boa para trabalhos em equipe. A função não é fixa, a cobertura aos companheiros são características muito importantes.

Alpinismo coletivo é também um bom exemplo de espírito de equipe, mas muito diferente do vôlei. Apesar de ser em equipe a principal preocupação é cada um fazer muito bem as suas tarefas (individuais) para não arriscar o grupo. O inimigo é o perigo, e a perda pode ser total.  Esse pessoal deve ser bom numa linha de montagem.

O alpinista individual, aquele radical que nem corda usa, deve entender como enfrentar dificuldades sem choramingar mais recursos e define muito bem o que é comprometimento.

Não posso encerrar sem lembrar do músico. Não é um esporte (alguns são – carregar um violoncelo e tocar bateria exige preparo de um esportista), mas é um passatempo para os não profissionais.

Dependendo do instrumento e até do conjunto ou orquestra, o músico tem uma característica assim como o esportista. A harmonia é a característica principal do músico, têm muitas outras, mas a harmonia é extraordinária. Conseguir harmonia numa empresa ou departamento é muito difícil, mantê-la é impossível. Use os músicos para ajudá-lo – ou ensiná-lo - conseguir e manter a harmonia.

Não são esportes, mas os passatempos, que são inúmeros, também tem suas características próprias. Um jogador de xadrez é muito bom para o planejamento estratégico e orçamentário, mas é muito rígido com regras, então quando precisar alguém mais versátil use um jogador de truco. 

O objetivo não é esgotar, mesmo porque eu não conseguiria escrever e muito menos você ler.

O objetivo é sugerir uma metodologia simples e divertida para facilitar os lideres na conciliação entre os recursos disponíveis e aqueles necessários para as tarefas a serem executadas. Saber conciliar as características de seus colaboradores e das tarefas que precisam ser executadas por eles faz do chefe um líder.

A simples escolha do recurso correto resultará em menos custo, portanto maior resultado e a “tropa” mais motivada.

Pode acontecer, e será freqüente, de não haver entre os colaboradores as características necessárias para uma tarefa. Nestes casos é importante que isso fique bem claro para o “mergulhador” que sua próxima tarefa é na “quadra de squash”. É importante o líder discutir com seus colaboradores as características necessárias para execução da tarefa que se está passando, é importante discutir que algumas das características naturais dos executantes, para não atrapalharem o sucesso da execução, precisarão ser muito bem dominadas.



Comentários
1 - neusa - 23/2/2010 17:20
parabéns. adorei.



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